sexta-feira, 3 de março de 2017

O privilégio da mediocridade.

A Viola Davis, rainha de todas nossas vidas, recentemente se tornou a primeira atriz negra a receber um Tony, um Globo de Ouro e um Oscar. Em um de seus discursos pós premiação, Viola conta sobre sua infância na pobreza, em um prédio infestado de ratos e sem ter o que comer. Ela jurou a si mesma que essa não era a vida que queria pra si. Opiniões a parte sobre essas histórias e como elas são representadas, isso me fez lembrar de mim mesma na infância. 
Minha mãe engravidou aos 20. Meu pai tinha 25. Ambos de famílias não muito estruturadas. Minha mãe a mais velha de 6 irmãos, desde os 15 saiu da escola particular e foi trabalhar porque se recusava a receber dinheiro do pai que saiu de casa por uma birra (e nunca mais voltou, embora dividisse o mesmo quintal com a minha avó). Meu pai, preto, pobre periférico, um de cinco filhos, teve pólio na infância, aprendeu a ler com 12 anos de idade. Ambos se conheceram nos movimentos estudantis e na boemia política da cidade de Fortaleza. A vida era ok. Montaram um bar que depois venderam quando eu nasci e se mudaram para uma cidade da região metropolitana. 

Ela virou secretaria escolar da prefeitura, assalariada. Meu pai, um pouco disso outro daquilo tentando se encontrar. Anos depois seria nas artes, o que não é lá o mais financeiramente recompensador, mas rico de outras maneiras. 

Aí vem eu, a vida não era tão difícil, mas era apertada de alguns modos e desconfortável de jeitos que é melhor esquecer. Eu tinha livros, mas computador só via de vez em quando. E o que mais me incomodava era a escola. Eu estudava em uma escola na outra rua, pública. Eles tentavam o melhor, mas eu detestava cada segundo. Era fácil demais ser a melhor aluna. Não tinham desafios, não tinham propostas, não tinha ninguém lá que se parecesse comigo. Era bom pra correr e brincar, mas depois que isso se tornou secundário, cada dia eu só sonhava em sair dali. Então eu disse pra mim que seria pura excelência; entraria na universidade com 16, no mestrado com 20, 22 no doutorado e ganharia o mundo. Falaria 10 idiomas. 

Eventualmente essa energia foi direcionada a eu consegui entrar numa escola federal, uma das melhores do estado, difícil de entrar, sem ter nenhum cursinho como a maioria. E mais ou menos nessa mesma época minha mãe tinha voltado a estudar e se formou em pedagogia. Pouco depois passou em um concurso melhor em Fortaleza. A arte do meu pai também prosperava e agora a vida já não era mais tão apertada. 

A vida na verdade era boa e eu finalmente tinha desafios para lidar. Amigos que dividiam o gosto (e a oportunidade de ter) por livros, cinema, música, idiomas. Estudava alemão e inglês e ainda continuava boa o suficiente pra me sobressair, mas foi cada vez mais fácil me acomodar. Nunca aprendi a ser a maior programadora da vida no ensino médio, e nem na faculdade. Eventualmente eu me tornei medíocre. 


E às vezes aperta a tristeza e a sensação de que eu não cheguei a onde as pessoas imaginavam que eu chegaria, porém eu tenho certeza que aquela Mauany que se balançava numa rede na sala sonhando com a vida no futuro estaria absolutamente feliz de saber que chegamos onde chegamos. Que a vida se direcionou de seus jeitos certos e tortos para aquelas coisas que ela sonhou. Ela talvez tivesse vergonha que eu leio pouco, e não escrevo tão bem. Mas os idiomas, os países conhecidos, as pessoas com as quais essa vida tem sido compartilhada; tudo isso para ela parecia tão extraordinário que só um mestrado, doutorado (que vão chegar aos 34 em vez de 24) seriam capaz de propiciar. 

A mediocridade é um privilégio.