segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O homem que não permitiu Veneza ser perfeita

Num frio Dezembro eu olhava incrédula pra uma das cidades mais famosas entre cidades famosas. Veneza, também conhecida como Seriníssima, ia ganhando meu coração com suas ruelas, casebres despedaçados e os seus infinitos canais. Eu e mais duas amigas compramos um bilhete da barca, que era uma maneira de experimentar navegar por Veneza sem pagar os 80 euros do rolêzinho nas gôndolas.
Esperávamos a barca chegar sentadas num abrigo no pier quando se aproxima um homem; branco, ao redor dos 40, que não queria tinha nada demais. Usava óculos escuros, bermudas cáqui e segurava uma sacola em uma das mãos e o celular na outra. Nada demais. Até que noto saltando de seu zíper qualquer coisa que não devia estar ali. Me recusando a acreditar, noto que é de fato seu, não tenho nome melhor pra dar, saco. E me assusto e intrigo. O homem agia de modo tão natural. Avisei as minhas amigas, ambas confirmaram e decidimos por ignorar.
A barca não chegou por outros 10 minutos. Longos dez minutos. O homem agora se tocava como se estivesse assistindo o futebol no domingo sozinho na sala de estar. Acuadas nós nos recusávamos a olhar. Ali tão perto de todos e ainda tão vulneráveis. Ele mudou de ângulo para que agora ficasse as nossas vistas mesmo sem escolha. Não nos olhava, mas sabia que nós o podíamos ver.
Quando a barca finalmente chegou não havia alternativa senão passar por ele para embarcar. Ele levantou e com a sacola agora fez um compartimento no qual ninguém, a não ser nós que passávamos por ele, pudéssemos ver os seus movimentos rápidos em volta de seu órgão que aparentemente lhe dava o poder de fazer o que estava fazendo.
Todos embarcamos, ele não. Apenas observava a barca seguir pelo canal enquanto ainda mais frenético movia o braço.

Um minuto depois aquele homem sumiu da minha cabeça, a beleza da cidade, das pontes flutuantes, as casas que davam para a água e tudo mais de belo que Veneza tinha pra mostrar o apagaram totalmente de meus pensamentos.  Contudo quando a memória volta eu me arrependo de não ter lhe gritado, saído dali, chamado alguém. Gritado "Stronzo" com meu italiano paupérrimo que só conhece um xingamento. Apenas sinto que devia ter feito algo, e não deixado que ele roubasse de mim a experiência perfeita que ele estragava com aquela violência. E talvez o constrangimento evitasse que ele repetisse isso com outras pessoas. Nunca saberei.

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