terça-feira, 13 de agosto de 2013

São quatro da manhã.

São quatro da manhã e eu não sou o prodígio que eu fui na infância.
Meu blog não é um sucesso como meus poemas infantis já foram.
São quatro da manhã e eu não sou excepcional.
Eu não sei fazer nada que alguém não saiba no meu curso da faculdade.
Eu quero desistir do meu curso e ir pra algum lugar que eu me sinta relevante no sentido de valer a pena.
Mas eu sou preguiçosa e procrastinadora.
São quatro da manhã e eu não fui dormir porque eu não quis.
São quatro da manhã e eu nunca fiz um filme.
São quatro da manhã e eu nunca fiz um cartaz.
São quatro da manhã e meu roteiro é ruim.
São quatro da manhã e eu não tenho um grande amor.
Ninguém vai dizer que me ama no portão de embarque.
Nenhum professor vai elogiar meu desempenho.
Meu chefe vai me demitir.
São quatro da manhã e eu sou um desperdício de tempo.
São quatro da manhã e minha sensibilidade é uma mentira.
São quatro da manhã e eu não escrevi um livro.
São quatro da manhã e eu perco as melhores oportunidades.
São quatro da manhã e não é possível que eu não possa fazer diferente.
São quatro da manhã e a vida é uma bela de uma falta do que fazer.

sábado, 3 de agosto de 2013

Uma descoberta por dia.

Eu nunca me senti bonita. Nunca me senti bonita porque desde sempre achei que me faltava algo. Me faltava o cabelo certo, o nariz certo, o queixo certo, a barriga certa, a roupa certa. Então eu decidi que ia apostar tudo na minha inteligência suposta, no meu discurso, nas minhas opiniões. Mas a menina que não sabia falar direito, que ria das piadas idiotas e que deixava os meninos impressioná-la, ganhava todos os meninos no final da noite. Por muito tempo eu não liguei. Eu acordava e não gostava do meu cabelo, achava que tinha que saber me maquiar. Minha mãe dizia que eu não precisava tirar a sobrancelha porque elas já era bonitas, a menina da minha sala discordava. Com 6 anos na fila da merenda a menina disse que eu parecia um menino e eu nunca mais esqueci. Eu acordei todos os dias insegura de sair na rua. Eu passava batom, mas me achava ridícula e limpava a boca a caminho do ônibus. E quando um dos meninos se aproximava, eu achava que ele queria rir de mim ou eu nunca aceitava a veracidade dos sentimentos dele. Eu nunca disse que gostava do menino que me mandou uma carta com meu nome feito com corações. Eu não era boa o suficiente.
Mas eu era inteligente, eu tinha lido, assistido filmes, ouvido tudo que eu podia ouvir, discutia política, religião, economia e até futebol. Um dia eu me sentia feia enquanto estudava física depois da natação.  Meus cabelos estavam bagunçados. Minha blusa era apertada e fazia minha barriga aparecer. Um menino na biblioteca apontou pra mim. E eu presumi que ele estava me criticando ou sei lá o quê. Mas por uma ironia do destino, quatro dias depois eu me apaixonei por ele.
Alisei o cabelo, me senti melhor comigo mesma. Sentia que eu não devia nada por não andar mais despenteada. Tentei aprender tudo sobre ele. Ignorei meus gostos e o adorava como um pequeno rei. Eu me violentei e me anulei, e o pior de tudo, eu me senti burra, intelectualmente inferior, a um menino que nunca me disse oi e que nunca passou pelo que eu passei na vida. Um menino que tudo que tinha para me oferecer era um olhar curioso e ansioso que escapava quando chegávamos perto demais.
Mais tarde eu descobri que eu era que era boa demais pra ele, mas era muito tarde.
Era tarde porque eu precisei da minha vida toda pra entender que eu nunca fui insuficiente como eu achava. Que meu cabelo é um retrato de quem eu sou. Que meu cabelo crespo que nunca se acalma, urge pela liberdade de ser quem é. Meu cabelo se rebela contra o resto da sociedade que o subjuga. Meu cabelo se rebela contra a minha falta de amor por mim.
Finalmente entendi que aqueles que não aceitam o meu cabelo, as minhas feições, as minhas opiniões, não consideram válida a minha inteligência, esses é que não são dignos de mim. Esses que não compreendem a importância de ser o que eu nasci e o que eu me torno todos os dias não são dignos do meu tempo.

Quisera eu voltar praquela menina que se sofre e se mutilou de tantas maneiras e dizer pra ela que o errado era o mundo. Queria eu voltar no tempo e dizer pra ela nunca ter tentando se encaixar, porque o mundo que se molde em volta dela. Porque ela é incrível. E o que se apagou no tempo não volta mais. Que ela devia ter aprendido mais sobre ela própria. Que ela devia ter se levantado e gritado pra que outras meninas se unisse ao seu grito, porque todas essas meninas ainda estão sendo esquecidas por elas próprias em nome de inúmeros outros.Não, não é essa consciência que vai tornar mais fácil a caminhada. Mas agora ela pode aprender mais para onde seguir.

 Agora eu sei o que realmente me importa e eu nunca mais vou me deixar abater, apesar das dificuldades, apesar do resto do mundo.