quinta-feira, 18 de julho de 2013

Saindo do armário.

Oi meu nome é Mauany e recentemente eu descobri que sou feminista. 
Na verdade eu descobri que sempre fui, mas que tinha muita coisa em mim que estava na direção errada. Achava que ser estuprada ou  sofrer qualquer tipo de assédio era culpa da vítima, que mulher tinha que ser de poucos homens (um só não, mas poucos) para se dar valor. Mas eu sempre achei que a mulher poderia fazer suas escolhas, escolher não usar sutiã. Se  o peito era “caído", que fosse. Mas que também tinha o direito de colocar silicone sem ser chamada de fútil. Odiava o eterno julgamento das minhas tias avós sobre a vida dos outros. A vida dela, deixa ela. A vida é dele, deixe ele (enquanto não atrapalhasse mais ninguém).
Depois de adquirir mais informação sobre o Feminismo, comecei a ler mais sobre o assunto, e embora não seja um conceito fechado ou uma doutrina, você vai se tornando uma pessoa melhor com a prática e a reflexão dos seus atos. E se eu nunca me atraí por nenhum tipo de luta, encontrei no Feminismo  a minha bandeira.
Cá estava eu escrevendo um roteiro para uma cadeira da faculdade. Os requisitos eram: ser um curta de ficção. Tinha decidido que pelo menos a protagonista ia ser mulher e que o tema principal não ia ser romance (não que seja errado, mas já tem demais por aí). Mas caminhei por vários caminhos até chegar numa história que me comoveu. A história de uma gravidez indesejada. 
Apresentei a ideia ao meu professor hoje. E a primeira reação dele foi “aí ela não aborta né?" E a cara de chocado quando eu disse que sim.
Talvez seja muito difícil  mesmo para uma pessoa assimilar que escolher se priorizar em relação a um projeto de bebê não é apenas um ato de egoísmo, e sim uma escolha difícil a ser tomada. Depois ele perguntou “Mas quem é o pai da criança?" E eu disse que não era relevante. Ele prosseguiu questionando a minha escolha em terminar a história com ela saindo da clínica, depois de realizar o aborto, pois era previsível. Eu expliquei que o foco da minha história era a personagem e o drama que ela passa ao longo desse curta, e não um ponto de virada hollywoodiano. Eu estou contando a história de uma escolha. Ele sugeriu que eu terminasse então com ela sendo chamada para entrar na sala, restando assim ao espectador deduzir se ela fez ou  não. Dei um sorriso amarelo e disse que adorei a sugestão (me julguem, preciso de nota pra passar de  semestre).
Entro no carro de um colega com mais duas amigas, desabafo a situação. Meu colega diz que mais legal seria se ela tivesse um conflito religioso. NÃO, BROTHER. Você não sabe do que eu quero falar porque você não tem ideia do que é ser julgado já pela sociedade (ele achou que era um puro questionamento legal, pelo fato do aborto ser crime). Mesmo que fosse só isso, já era muito. O privilegiado nunca enxerga o privilégio.
Meu professor perguntou qual era a minha opinião em relação ao assunto. E expliquei minhas bases. Ele disse que eu devia adequar a história para que não fosse um filme militante. Eu disse que eu queria levantar o questionamento.
Hoje eu dei minha cara a tapa em nome de algo que eu acredito. E é difícil. Tem todo tipo de gente no mundo. E todos os tipos de desigualdade com os quais temos que lidar dia após dia. O mundo nunca será perfeito e o Brasil ainda tem muito o que evoluir pela frente. Mas se eu mudei, graças a leitura e depoimento dos outros, quero eu também ser essa multiplicadora de reflexão. Que a minha arte venha para incomodar.