sexta-feira, 19 de abril de 2013

Manhã de Quinta




Texto feito pra cadeira de semiótica, mas postado na íntegra aqui.



Acordei muito cedo. Pela terceira vez seguida, o que é uma raridade e um tanto assustador depois de quase um mês indo dormir depois do sol nascer. Vou sentir dor de cabeça mais tarde, com certeza. Adoro as cores do céu essa hora. Da minha janela gradeada vejo o céu laranja e lilás cortado entre o cinza das barras da grade. Não ouço passarinhos cantarem. Faz tempo. Acho que é a desvantagem de morar na cidade. Passarinho tem muito mais o que fazer.


Eu podia me levantar agora, já que não vou conseguir mais dormir. Mas meu primeiro compromisso do dia é as 11h, então dá tempo checar os e-mails que não chequei ontem. Também posso ver os vídeos que ficaram faltando aquele dia. Mal dou por mim, já se passaram duas horas. Aposto que vou me atrasar. Não sei que roupa vestir. Eu não sei o que comer. Resolvo calçar meu tênis favorito com meu vestido estampado. Não tenho a menor ideia se eles combinam, mas quero arriscar. Eu iria de calça, mas elas estão todas muito frouxas desde que perdi cinco quilos em um mês.

Um mês sem comer sólidos "fazem milagres". Ainda bem que eu posso comer de novo, embora ainda não esteja acostumada com a mordida nova. Nem como eu me pareço. Me olho no espelho pra checar. Quem é essa que me olha com esses olhos pidões? Sorrio. Gosto de ter certeza que sou por trás desses olhos e dessas bochechas imensas. Tomara que elas diminuam ainda. Devia fazer um plástica no nariz também. Sempre penso nisso desde que operei. Eu nunca tive nada contra o meu nariz, mas agora ela parece imenso. Melhor correr pro banho. Lavo o cabelo? Não dá tempo. O telefone toca, minha mãe. Eu pedi pra ela me ligar as 9h, pra garantir que eu não me atrasaria.









- Já acordou?




- Já sim, estou quase pronta. Mas acho que vou comer na padaria da esquina.


- Eu ia propor isso, lá eles tem umas vitaminas muito boas. Evite comer coisas sólidas hoje. Não tenho certeza se você já está bem.


- Ok. Tenho que ir, mãe. Te amo.






- Te amo também, qualquer coisa me liga.









Olho pra mim de vestido e tênis. Acho que tá bom. Jogo o minimo de coisas na mochila. Olho pras minhas pernas. Eu não tive tempo de ir ao salão desde a cirurgia. Parece um king kong de pelos. Eu tenho muita vergonha dos pelos do buço e nas pernas. Principalmente na canela. Pego um nescau na geladeira, não vai dar tempo passar na padaria. Saio do meu apartamento, dou bom dia ao porteiro e vejo os pelo horrivelmente gritando por causa do sol. Não sei o que fazer. Subo no ônibus, coloco os fones de ouvido. Observo a avenida, penso se vou ficar surda. Canto baixinho as mesmas músicas de sempre, mas acho que o cobrador pode ouvir. Não me importo. O problema são esses pelos nas pernas! Decido descer no shopping e comprar uma meia calça. Faz séculos que não uso uma. Tenho quase vinte anos, e me vesti hoje como um menina de catorze. Mas é melhor que ver os olhares julgadores pros meus pelos. Será? Não sei. Não sei de nada hoje. Corro pra pegar o ônibus, não devia correr. Sinto meus pontos latejarem um pouco dentro da boca seca. Que dia quente! Que meias quentes! Odeio ser insegura.



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