sábado, 6 de abril de 2013

300 segundos.

A Universidade Federal do Ceará conta com campus distribuídos por  várias cidades do estado, mas principalmente em Fortaleza. Um dos mais famosos com certeza é o Campus do Pici. Esse por sua vez tem três entradas, sendo a mais comum a da Av. Humberto Monte, de onde sai um ônibus exclusivo do campus que auxilia o transporte dos alunos. Entre a entrada e a parada da biblioteca são apenas 5 minutos, mas os 5 minutos mais longos de todos. Nesses 300 segundos, todos os dias, se passa a minha vida inteira.
O ônibus chega, e ele entra correndo, quase não daria tempo, mas o motorista quase sempre espera. Usa óculos e mochila, como quase todos os outros estudantes. Usa sapatos, no entanto, e parece muito sério.  O que será que escuta nos fones de ouvido? Não sei e provavelmente nunca vou descobrir. Na curva da saída da agronomia a gente se casa. Ele me olha comovido e diz sim. No açude se passam os próximos 30 anos das nossas vidas.

Primeiro veem a nossa casa pequena, e então os gêmeos. A gente compra um apartamento maior e os meninos já são adolescentes roubando a chave do carro. E lá estamos nós de novo,  na frente dos convidados, mas dessa vez como pais do noivo. Ela joga o buquê e no estante seguinte estamos na maternidade. No fim do açude ainda somos jovens, mas já queremos descansar. Na curva da rotatória nos mudamos pra uma cidade menor no interior, ele sempre quis morar perto da praia. Abrimos um pequeno hotel e lá ficamos o resto dos nossos dias. Na parada da biblioteca ele vai embora e nunca mais nos veremos de novo.
Na outra quarta-feira entediante entra um moço moreno, cabelos longos, barba rala. Com ele eu viajo a América do Sul com uma mochila nas costas. Na mesma parada da agronomia onde me casei ontem, hoje bebo com argentinos num pequeno hostel em Santiago. Voltamos pra casa e temos nossa própria horta, no açude fazemos mais amigos e histórias pra contar. Não temos filhos. Ele é um oceanógrafo e eu uma professora que dá notas mais baixas pros alunos que faltam demais, mas nunca os reprovo. Moramos numa casa com muitos espelhos e livros, mas ele me troca por uma menina 20 anos mais nova na curva da rotatória. Eu também caso de novo e me mudo com um daqueles argentinos com quem nunca perdi contato e passamos nossas férias na Patagônia. Dessa vez só eu quem desço na biblioteca.

Todos os dias eu vivo a minha vida inteira e vejo ela ir embora pra nunca mais. A UFC tem alunos demais.

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