sábado, 20 de maio de 2017

Botas vermelhas

Eram 5h da manhã. Eu abri os olhos abruptamente sem motivo algum. Lá fora, 6 andares abaixo, podia ouvir passando os primeiros ônibus da manhã. O céu ainda estava escuro, mas rajadas de claridão despontavam no horizonte. Eu adorava aquelas janelas de vidro. Sentia a cidade como um aquário, sem perceber que era eu que estava trancada naquele espaço de vidro claustrofóbico. O apartamento era decente, mas quando se está parado tudo parece nos esmagar dentro da rotina. Acendi um cigarro. A gente sempre tenta parar de fumar, mas quando alguém se encontra de frente a uma pilha de biscoitos, os biscoitos já ganharam. Meus biscoitos eram o cigarro. E na verdade tudo mais; autocontrole não era o meu forte. Por isso não iria comprar nenhuma carteira depois daquela. Soprei a fumaça da janela sobre a cidade. Apenas mais um aglomerado de substâncias tóxicas ascendendo aos céus naquela resto de noite.  Agora as estrelas dividiam espaço com um pouco mais de luz que se espreguiçava por trás dos prédios.

Foi quando a vi lá em baixo. Com botas vermelhas um tanto ridículas andando de um lado para o outro na calçada. Ela também fumava um cigarro. Tinha uma bolsa a tira colo e uma blusa um tanto apertada, como quem cresceu de repente e não teve dinheiro para atualizar o guarda roupa. Sem nenhum bom motivo resolvi descer e ir fumar mais um cigarro lá em baixo. Com um suéter um pouco grande demais abri a porta e perguntei se ela tinha um isqueiro. Ela se aproximou do muro e acendeu meu cigarro no seu. Ela continuava impaciente, mas agora não andava de um lado para o outro. Apenas batia as botas vermelhas na calçada. Eu perguntei se estava tudo bem. As botas vermelhas se acalmaram e ela deu um longo suspiro. Balançou os cabelos cacheados e disse que sim. Só estava esperando uma encomenda que deveria ter chegado uma hora atrás. Ela me olhou de cima a baixo. Meu suéter dois números maiores, meu cabelo bagunçado e sujo, minhas unhas bem feitas e meus chinelos do mickey. E me devolveu a pergunta. Eu não sabia dizer se estava bem. Havia dois dias que tinha decidido largar meu emprego, mas ainda não havia criado a coragem para pedir demissão. Eu era a gerente no meio de um projeto grande em uma empresa que eu havia ajudado a crescer. Mas não dava mais pra mim existir naquele outro aquário que era meu escritório de esquina. Mas respondi que sim. Que estava apenas tentando criar coragem para o dia que vinha pela frente.

Quando me calei percebi um homem de terno vindo em nossa direção. Em suas mãos trazia um jornal. Ele me cumprimentou cortês, e se dirigiu a ela nervoso.
“Me desculpe o atraso. Foi mais difícil do que eu imaginei. Mas as coisas saíram como planejado. Precisamos apenas de mais uns dias e tudo estará bem.” Entregou-lhe o jornal, se despediu de mim, e seguiu seu caminho com passos apressados e desajustados.
Ela não abriu o jornal, apenas o guardou na bolsa e deu um breve sorriso. Sua expressão se suavizou e ela olhou pra mim novamente. “Tem dias que precisam acontecer mais de uma vez para dar certo”.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A minha cabeça tá uma bagunça

I am tired. Ich bin müde. Eu estou cansada. Yo estoy cansada.

Tem muita coisa acontecendo na minha cabeça, na minha vida, no meu gosto musical. Tem pouco tempo. Tem muita procrastinação.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O privilégio da mediocridade.

A Viola Davis, rainha de todas nossas vidas, recentemente se tornou a primeira atriz negra a receber um Tony, um Globo de Ouro e um Oscar. Em um de seus discursos pós premiação, Viola conta sobre sua infância na pobreza, em um prédio infestado de ratos e sem ter o que comer. Ela jurou a si mesma que essa não era a vida que queria pra si. Opiniões a parte sobre essas histórias e como elas são representadas, isso me fez lembrar de mim mesma na infância. 
Minha mãe engravidou aos 20. Meu pai tinha 25. Ambos de famílias não muito estruturadas. Minha mãe a mais velha de 6 irmãos, desde os 15 saiu da escola particular e foi trabalhar porque se recusava a receber dinheiro do pai que saiu de casa por uma birra (e nunca mais voltou, embora dividisse o mesmo quintal com a minha avó). Meu pai, preto, pobre periférico, um de cinco filhos, teve pólio na infância, aprendeu a ler com 12 anos de idade. Ambos se conheceram nos movimentos estudantis e na boemia política da cidade de Fortaleza. A vida era ok. Montaram um bar que depois venderam quando eu nasci e se mudaram para uma cidade da região metropolitana. 

Ela virou secretaria escolar da prefeitura, assalariada. Meu pai, um pouco disso outro daquilo tentando se encontrar. Anos depois seria nas artes, o que não é lá o mais financeiramente recompensador, mas rico de outras maneiras. 

Aí vem eu, a vida não era tão difícil, mas era apertada de alguns modos e desconfortável de jeitos que é melhor esquecer. Eu tinha livros, mas computador só via de vez em quando. E o que mais me incomodava era a escola. Eu estudava em uma escola na outra rua, pública. Eles tentavam o melhor, mas eu detestava cada segundo. Era fácil demais ser a melhor aluna. Não tinham desafios, não tinham propostas, não tinha ninguém lá que se parecesse comigo. Era bom pra correr e brincar, mas depois que isso se tornou secundário, cada dia eu só sonhava em sair dali. Então eu disse pra mim que seria pura excelência; entraria na universidade com 16, no mestrado com 20, 22 no doutorado e ganharia o mundo. Falaria 10 idiomas. 

Eventualmente essa energia foi direcionada a eu consegui entrar numa escola federal, uma das melhores do estado, difícil de entrar, sem ter nenhum cursinho como a maioria. E mais ou menos nessa mesma época minha mãe tinha voltado a estudar e se formou em pedagogia. Pouco depois passou em um concurso melhor em Fortaleza. A arte do meu pai também prosperava e agora a vida já não era mais tão apertada. 

A vida na verdade era boa e eu finalmente tinha desafios para lidar. Amigos que dividiam o gosto (e a oportunidade de ter) por livros, cinema, música, idiomas. Estudava alemão e inglês e ainda continuava boa o suficiente pra me sobressair, mas foi cada vez mais fácil me acomodar. Nunca aprendi a ser a maior programadora da vida no ensino médio, e nem na faculdade. Eventualmente eu me tornei medíocre. 


E às vezes aperta a tristeza e a sensação de que eu não cheguei a onde as pessoas imaginavam que eu chegaria, porém eu tenho certeza que aquela Mauany que se balançava numa rede na sala sonhando com a vida no futuro estaria absolutamente feliz de saber que chegamos onde chegamos. Que a vida se direcionou de seus jeitos certos e tortos para aquelas coisas que ela sonhou. Ela talvez tivesse vergonha que eu leio pouco, e não escrevo tão bem. Mas os idiomas, os países conhecidos, as pessoas com as quais essa vida tem sido compartilhada; tudo isso para ela parecia tão extraordinário que só um mestrado, doutorado (que vão chegar aos 34 em vez de 24) seriam capaz de propiciar. 

A mediocridade é um privilégio. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Que se danem os livros de história

Tem sido impossível abrir qualquer rede social ou jornal sem ser bombardeado por inúmeros absurdos dos governos ao redor do mundo. E o pior de tudo é que há tempos se foi a esperança de que alguém com bom senso há de nos acudir. De certo entramos em uma era que não se sabe quando termina, mas se sabe que é só o começo.

Em meio a tantos absurdos alguns repetem "os livros de histórias nos farão justiça". E para mim soa tão vago e preguiçoso quanto dizer que a justiça divina fará o que a 'justiça dos homens" não fez. Se existe algo que podemos aprender hoje é que tanto faz os livros de história. Tem gente mentindo em rede nacional e chamado de fatos alternativos. Tem gente dizendo que não houve holocausto, que o nazismo era de esquerda e que a ditadura não foi tão ruim assim. Que diferença farão no futuro livros de história quando parece que qualquer decência é associada a esquerda. E que algum grau de intelectualidade é tratado com desprezo, como se fosse errado saber das coisas. Que diferença farão os livros de história se o seu ensino se tornou optativo?

O que nos bate a porta é deveras assustador. É o constante ataque ao senso crítico e a qualquer tipo pensamento independente. É a cultura do copia e cola sem ler nem procurar entender, e até sem acreditar. É como viver numa constante idiotlândia que saiu das sombras e tomou conta de todos. As pessoas perderam a vergonha e agora se orgulham de sua estupidez.

São tempos difíceis para os que sabem interpretar texto.

Parahyba

Certa vez ouvi um desses causos onde o homem olha para um grupo de passarinhos e se pergunta porque eles ficam no mesmo local mesmo tendo asas, e então o homem olha pra si mesmo. 

No domingo a noite embarquei no ônibus rumo a Paraíba de supetão. Passagens compradas meia hora antes do embarque, mochilas empacotadas meia horas do uber chegar e 11h de viagem a nossa frente. A gente tinha uma missão nessa viagem, mas a vigem também tinha uma missão para mim. Fazia  tempo que eu não me jogava assim no mundo de maneira tão aberta e me lembrou de novo o que significa viajar. A conexão que você faz com os outros e por vezes melhor e maior que as novas paisagens que a gente encontra. 

Ouvi sotaques, estórias e risadas que vou guardar comigo.